08 janeiro 2026

A Poliomielite como Marco Fundador das Unidades de Terapia Intensiva: Uma Análise Histórico-Científica


Resumo


A poliomielite foi uma das principais responsáveis por epidemias de grande impacto social e sanitário no século XX. Além das sequelas neuromotoras amplamente conhecidas, a doença provocou elevado número de casos de insuficiência respiratória aguda, o que exigiu respostas médicas inovadoras. Este estudo analisa, sob perspectiva histórico-científica, a relação entre as epidemias de poliomielite e o surgimento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), destacando o papel da epidemia de Copenhague em 1952 como evento fundador da medicina intensiva moderna. Conclui-se que a poliomielite não apenas impulsionou avanços tecnológicos, mas também redefiniu a organização hospitalar e a prática clínica do cuidado ao paciente crítico.


Descritores: Poliomielite; Terapia Intensiva; História da Medicina; Ventilação Mecânica; Cuidados Críticos.


Abstract


Poliomyelitis was responsible for major epidemics with significant social and health impacts throughout the twentieth century. Beyond its well-known neuromotor sequelae, the disease caused a high incidence of acute respiratory failure, demanding innovative medical responses. This study analyzes, from a historical-scientific perspective, the relationship between poliomyelitis epidemics and the emergence of Intensive Care Units (ICUs), highlighting the Copenhagen epidemic of 1952 as a foundational event in modern critical care medicine. It is concluded that poliomyelitis not only stimulated technological advances but also redefined hospital organization and clinical practice in critical care.


Keywords: Poliomyelitis; Intensive Care Units; History of Medicine; Mechanical Ventilation; Critical Care.


1. Introdução

A poliomielite representou uma das mais relevantes emergências sanitárias do século XX, sendo responsável por elevadas taxas de morbimortalidade em diversos países. Antes da introdução da vacinação em larga escala, a doença acometia principalmente crianças, deixando um grande contingente de sobreviventes com sequelas motoras permanentes.

Entretanto, o impacto da poliomielite ultrapassou o campo da neurologia e da reabilitação. A forma respiratória da doença expôs as limitações da assistência hospitalar da época e impulsionou transformações estruturais que culminaram na criação das Unidades de Terapia Intensiva.

2. Metodologia

Trata-se de um estudo de natureza histórico-descritiva, baseado em revisão narrativa da literatura científica, livros de história da medicina e documentos institucionais. Foram analisadas publicações nacionais e internacionais que abordam a evolução da terapia intensiva, a história da poliomielite e o desenvolvimento da ventilação mecânica.


3. A Poliomielite e o Comprometimento Respiratório

A poliomielite, causada por um enterovírus, apresenta manifestações clínicas variáveis. Nas formas bulbar e bulboespinhal, ocorre comprometimento dos centros respiratórios e dos músculos responsáveis pela ventilação, resultando em insuficiência respiratória aguda potencialmente fatal.


Até meados do século XX, o principal recurso disponível era o pulmão de aço, equipamento de ventilação por pressão negativa. Apesar de sua relevância histórica, esse dispositivo apresentava importantes limitações técnicas e operacionais, especialmente durante surtos epidêmicos.

4. A Epidemia de 1952 em Copenhague

Em 1952, a cidade de Copenhague enfrentou uma das mais severas epidemias de poliomielite já registradas. A mortalidade entre pacientes com insuficiência respiratória ultrapassava 80%.


O anestesiologista Björn Ibsen introduziu uma abordagem inovadora: ventilação com pressão positiva por meio de traqueostomia e ventilação manual contínua. Essa estratégia reduziu drasticamente a mortalidade para aproximadamente 25%, demonstrando a eficácia do suporte ventilatória intensivo aliado à vigilância contínua.


5. Consolidação do Conceito de Terapia Intensiva

O sucesso da experiência dinamarquesa evidenciou a necessidade de reorganização dos serviços hospitalares. A partir desse contexto, foram estabelecidos os princípios fundamentais das UTIs:

  • Centralização de pacientes críticos;
  • Monitorização contínua;
  • Atuação multiprofissional;
  • Protocolização dos cuidados.

Em 1953, foi criada a primeira unidade estruturada segundo esses princípios, considerada a precursora das UTIs modernas.



6. Impacto na Prática Médica Contemporânea

A poliomielite foi determinante para o desenvolvimento de áreas fundamentais da medicina, como:

  • Ventilação mecânica invasiva e não invasiva;
  • Monitorização hemodinâmica;
  • Anestesiologia moderna;
  • Medicina intensiva como especialidade;
  • Organização hospitalar em níveis de complexidade.

Esses avanços permanecem como pilares do cuidado ao paciente crítico até os dias atuais.


7. Discussão

Embora atualmente a poliomielite esteja praticamente erradicada em grande parte do mundo, seu legado histórico permanece vivo nas UTIs. A doença revelou a fragilidade dos sistemas de saúde frente a crises respiratórias em massa, antecipando desafios que voltariam a ocorrer em pandemias posteriores, como a COVID-19.

Assim, a história da terapia intensiva não pode ser compreendida sem o reconhecimento do papel central desempenhado pela poliomielite.


8. Conclusão

A poliomielite foi mais do que uma enfermidade devastadora: foi o catalisador de uma das maiores transformações da medicina hospitalar. A criação das Unidades de Terapia Intensiva representa um dos seus mais importantes legados históricos.

Reconhecer essa origem não apenas preserva a memória científica, mas também reforça a importância da vigilância epidemiológica, da inovação médica e da organização dos sistemas de saúde frente às crises sanitárias.

Referências (modelo Vancouver)



  1. Ibsen B. The anesthetist’s viewpoint on the treatment of respiratory complications in poliomyelitis. Proc R Soc Med. 1954.
  2. Safar P. History of critical care medicine. Crit Care Med. 1981.
  3. Vincent JL. Critical care: origins and evolution. Crit Care. 2013.
  4. World Health Organization. Poliomyelitis: historical overview.
  5. Reis J, et al. História da terapia intensiva. Rev Bras Ter 


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