22 setembro 2026

ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA PÓS-POLIOMIELITE: ASPECTOS CLÍNICOS, FISIOPATOLÓGICOS E DIAGNÓSTICOS.

Resumo

A poliomielite é uma doença infecciosa causada pelo poliovírus, capaz de produzir lesões permanentes nos neurônios motores do sistema nervoso central. Embora muitos sobreviventes apresentem estabilização neurológica e funcional após a fase aguda, parte deles pode desenvolver, décadas posteriormente, novos sinais de deterioração neuromuscular. Entre essas manifestações encontra-se a atrofia muscular progressiva associada aos efeitos tardios da poliomielite, frequentemente discutida na literatura no contexto da Síndrome Pós-Poliomielite (SPP). O quadro pode envolver nova perda de força muscular, redução da resistência, fadiga, dor e perda funcional progressiva. A fisiopatologia proposta está relacionada, entre outros mecanismos, à sobrecarga prolongada das unidades motoras remanescentes e à posterior degeneração de unidades motoras previamente afetadas pela poliomielite. O diagnóstico é essencialmente clínico e de exclusão, não existindo atualmente um teste laboratorial único e específico capaz de confirmar a SPP. A avaliação neurológica, funcional e eletrofisiológica possui papel importante na caracterização do quadro e na exclusão de outras doenças. O reconhecimento adequado dessas manifestações é relevante tanto para o acompanhamento clínico quanto para a reabilitação e para a compreensão das necessidades funcionais dos sobreviventes da poliomielite.

Palavras-chave: poliomielite; síndrome pós-poliomielite; atrofia muscular; neurônio motor; reabilitação; doença neuromuscular.

Um ponto importante para pesquisa

No Brasil, esse tema tem particular importância porque existe uma trajetória histórica de pesquisa clínica e neuromuscular envolvendo a Escola Paulista de Medicina/UNIFESP, incluindo trabalhos do grupo do neurologista Acary Souza Bulle Oliveira sobre a Síndrome Pós-Poliomielite.

1. Introdução

A poliomielite paralítica constitui uma das doenças infecciosas que produziram importantes consequências neurológicas e funcionais ao longo do século XX. A infecção pelo poliovírus pode provocar destruição de neurônios motores, especialmente aqueles localizados nos cornos anteriores da medula espinhal, resultando em diferentes graus de fraqueza, paralisia e atrofia muscular.

Após a fase aguda da doença, muitos indivíduos apresentam recuperação funcional parcial ou significativa. Essa recuperação, entretanto, não significa necessariamente restituição integral das unidades motoras destruídas. Durante o processo de recuperação, unidades motoras remanescentes podem ampliar sua área de inervação por meio de reinervação compensatória.

Após décadas de estabilidade, alguns sobreviventes da poliomielite passam a apresentar nova fraqueza muscular, fadiga, dor, redução da resistência e perda funcional. Esse conjunto de manifestações é atualmente estudado principalmente no contexto da Síndrome Pós-Poliomielite. Diretrizes neurológicas descrevem a SPP como uma condição caracterizada por nova ou aumentada fraqueza muscular, atrofia, dor e fadiga após longo intervalo da poliomielite aguda.

A atrofia muscular progressiva pós-poliomielite merece atenção específica porque representa uma das manifestações mais relevantes da deterioração neuromuscular tardia. Historicamente, diferentes denominações foram empregadas para descrever esse fenômeno, incluindo post-polio muscular atrophy e post-polio syndrome, contribuindo para certa heterogeneidade terminológica na literatura.

2. Fisiopatologia

A lesão neurológica produzida pela poliomielite pode resultar em perda permanente de neurônios motores. Os neurônios sobreviventes podem compensar parcialmente essa perda por meio da formação de novas ramificações axonais, reinervando fibras musculares que perderam sua inervação original.

Esse mecanismo permite que o indivíduo recupere parte da força e da capacidade funcional após a fase aguda da doença. Entretanto, as unidades motoras remanescentes passam a apresentar maior carga funcional.

A hipótese fisiopatológica mais aceita para parte dos casos de deterioração pós-poliomielite envolve a incapacidade dessas unidades motoras aumentadas de manter indefinidamente sua função. Processos relacionados à degeneração distal das unidades motoras, associados ao envelhecimento e à utilização prolongada da musculatura, têm sido propostos para explicar o aparecimento de nova fraqueza e atrofia.

Esse modelo permite compreender por que uma pessoa pode permanecer clinicamente estável durante muitos anos e posteriormente apresentar perda progressiva de força.

É importante, contudo, evitar uma interpretação simplificada segundo a qual toda piora funcional em um sobrevivente da poliomielite seria necessariamente causada pela SPP. Alterações ortopédicas, neuropatias periféricas, doenças musculares, alterações respiratórias, descondicionamento físico e outras condições associadas ao envelhecimento também podem produzir sintomas semelhantes. Por essa razão, a investigação diagnóstica deve excluir causas alternativas.

3. Atrofia muscular progressiva pós-poliomielite e Síndrome Pós-Poliomielite

A relação entre os dois conceitos exige atenção terminológica.

A expressão atrofia muscular progressiva pós-poliomielite enfatiza a perda progressiva de massa muscular e de função decorrente da deterioração neuromuscular tardia em indivíduos previamente afetados pela poliomielite.

Já a Síndrome Pós-Poliomielite corresponde a uma condição clínica mais ampla, na qual podem estar presentes nova fraqueza muscular, fadiga, redução da resistência, atrofia, dores musculares ou articulares e perda funcional.

Historicamente, Dalakas propôs uma definição mais restritiva, na qual a nova atrofia muscular ocorrida pelo menos 15 anos após a poliomielite constituía elemento central do quadro denominado atrofia muscular pós-poliomielite. Posteriormente, critérios mais amplos passaram a enfatizar a nova fraqueza muscular e a exclusão de outras causas.

Portanto, do ponto de vista científico, é mais adequado considerar a atrofia muscular progressiva como uma importante manifestação dentro do espectro dos efeitos tardios da poliomielite, sem presumir que todos os casos correspondam automaticamente aos critérios diagnósticos completos de SPP.

4. Características clínicas

As manifestações clínicas podem variar consideravelmente entre os indivíduos.

Entre as manifestações descritas na literatura encontram-se:

  • nova perda ou piora da força muscular;

  • atrofia muscular progressiva;

  • fadiga muscular;

  • diminuição da resistência para atividades anteriormente realizadas;

  • dor muscular;

  • dor articular;

  • redução da capacidade funcional;

  • alterações da marcha;

  • maior dificuldade para transferências;

  • necessidade crescente de dispositivos auxiliares de mobilidade;

  • em alguns casos, comprometimento respiratório ou bulbar.

A literatura brasileira apresenta a SPP como uma condição neurológica caracterizada principalmente por nova fraqueza muscular e/ou fatigabilidade muscular anormal muitos anos após a poliomielite aguda.

Estudo realizado em centro terciário brasileiro também investigou a frequência e as manifestações clínicas da SPP em indivíduos com antecedente de poliomielite, envolvendo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, incluindo Acary Souza Bulle Oliveira.

5. Diagnóstico

O diagnóstico da Síndrome Pós-Poliomielite é predominantemente clínico. Não existe atualmente um exame isolado capaz de confirmar definitivamente a síndrome.

Os critérios desenvolvidos ao longo das últimas décadas apresentam elementos comuns, entre eles:

  1. antecedente de poliomielite paralítica;

  2. recuperação parcial ou substancial após a doença aguda;

  3. período prolongado de estabilidade neurológica e funcional, frequentemente de pelo menos 15 anos;

  4. aparecimento gradual de nova fraqueza muscular persistente ou fatigabilidade anormal;

  5. manutenção dos sintomas por período prolongado;

  6. exclusão de outras doenças ou condições capazes de explicar a deterioração clínica.

Os critérios da March of Dimes, frequentemente utilizados na literatura contemporânea, também consideram evidências de perda de neurônios motores, estabilidade neuromuscular prolongada e nova fraqueza ou fatigabilidade.

A eletroneuromiografia pode contribuir para demonstrar alterações compatíveis com perda de neurônios motores e desnervação, além de auxiliar na investigação de diagnósticos diferenciais.

6. Diagnóstico diferencial

A investigação é particularmente importante porque a perda funcional tardia em pessoas que tiveram poliomielite não deve ser automaticamente atribuída à SPP.

Entre as condições que podem necessitar de investigação encontram-se doenças neurológicas, musculares, ortopédicas, respiratórias e sistêmicas.

A avaliação pode incluir, conforme a indicação clínica:

  • exame neurológico;

  • avaliação funcional;

  • eletroneuromiografia;

  • exames laboratoriais;

  • avaliação respiratória;

  • exames de imagem;

  • avaliação ortopédica;

  • investigação de outras doenças neuromusculares.

A literatura especializada destaca que a SPP permanece essencialmente como um diagnóstico clínico de exclusão.

7. Reabilitação e manejo

Não existe atualmente tratamento curativo específico para a Síndrome Pós-Poliomielite. O manejo deve ser individualizado e direcionado à preservação da capacidade funcional, à redução de sintomas e à prevenção de sobrecarga muscular.

A reabilitação deve considerar a capacidade funcional individual e evitar tanto a inatividade excessiva quanto a sobrecarga da musculatura comprometida.

Diretrizes da European Federation of Neurological Societies indicam que programas supervisionados de exercícios podem ser utilizados em determinados pacientes, desde que adequadamente individualizados.

A utilização de órteses e dispositivos auxiliares de mobilidade pode ser necessária quando há perda funcional. Em determinadas situações, a cadeira de rodas pode constituir recurso de conservação de energia e de ampliação da autonomia, e não simplesmente consequência de incapacidade funcional absoluta. A literatura brasileira sobre SPP também destaca a importância de recursos de reabilitação e dispositivos auxiliares.

8. Importância da identificação e do acompanhamento

O envelhecimento da população de sobreviventes da poliomielite torna necessário ampliar o reconhecimento dos efeitos tardios da doença.

A deterioração funcional progressiva pode modificar profundamente a mobilidade, a independência, a participação social e a necessidade de tecnologias assistivas.

Por essa razão, a avaliação do indivíduo com histórico de poliomielite deve considerar não apenas a existência de uma sequela antiga, mas também a possibilidade de evolução neuromuscular tardia.

Essa distinção possui relevância clínica e funcional: uma pessoa pode apresentar uma sequela permanente decorrente da poliomielite e, décadas depois, desenvolver um processo adicional de deterioração neuromuscular.

9. Aspectos relacionados à classificação das doenças

A classificação nosológica dos efeitos tardios da poliomielite também apresenta importância científica e epidemiológica.

Estudo brasileiro sobre a Classificação Internacional de Doenças e a revisão para a CID-11 destacou historicamente a inclusão do código G14 — síndrome pós-poliomielite na CID-10, em atualização realizada a partir de 2010. O trabalho contou com a participação de Acary Souza Bulle Oliveira e outros pesquisadores brasileiros envolvidos na discussão das classificações internacionais.

A classificação adequada é importante porque possibilita maior visibilidade epidemiológica e facilita a identificação dos indivíduos que apresentam efeitos tardios da poliomielite nos sistemas de saúde.

10. Considerações finais

A atrofia muscular progressiva pós-poliomielite representa uma manifestação relevante dos efeitos tardios da poliomielite e deve ser compreendida dentro do contexto mais amplo da deterioração neuromuscular pós-poliomielite.

A existência de um período prolongado de estabilidade após a poliomielite não significa necessariamente ausência de risco de deterioração funcional posterior. A nova fraqueza muscular, a fatigabilidade, a atrofia e a perda progressiva de capacidade funcional constituem elementos importantes para a avaliação clínica.

A literatura científica indica que a Síndrome Pós-Poliomielite é um diagnóstico clínico de exclusão, sendo necessária investigação cuidadosa para diferenciar a deterioração neuromuscular de outras doenças ou condições associadas ao envelhecimento e às sequelas prévias da poliomielite.

Do ponto de vista científico e assistencial, o reconhecimento desses efeitos tardios é fundamental para que os sobreviventes da poliomielite recebam avaliação neurológica adequada, acompanhamento funcional, reabilitação individualizada e tecnologias assistivas compatíveis com suas necessidades.

Finalmente, a diferenciação entre sequela permanente da poliomielite, atrofia muscular progressiva pós-poliomielite e Síndrome Pós-Poliomielite é importante tanto para a precisão científica quanto para a adequada descrição da evolução funcional desses indivíduos.

Referências

  1. OLIVEIRA, Acary Souza Bulle; MAYNARD, Frederick M. Síndrome Pós-Poliomielite: aspectos neurológicos. Revista Neurociências, v. 10, n. 1, 2002. DOI: 10.34024/rnc.2002.v10.8907.

  2. FARBU, E.; GILHUS, N. E.; BARNES, M. P.; et al. EFNS guideline on diagnosis and management of post-polio syndrome. Report of an EFNS task force. European Journal of Neurology, v. 13, n. 8, p. 795-801, 2006. DOI: 10.1111/j.1468-1331.2006.01385.x.

  3. QUADROS, Abrahão Augusto Juviniano; CONDE, Mônica Tilli Reis Pessoa; MARIN, Luis Fabiano; et al. Frequency and clinical manifestations of post-poliomyelitis syndrome in a Brazilian tertiary care center. Arquivos de Neuro-Psiquiatria.

  4. MOTTA, Monalisa Pereira; QUADROS, Abrahão Augusto Juveniano; CONTI, Mônica de Souza Brito; OLIVEIRA, Acary Souza Bulle. Post-Polio Syndrome. Brazilian Journal of Biological Sciences, v. 5, n. 11, p. 631-639, 2018.

  5. LAURENTI, Ruy; DI NUBILA, Heloisa Brunow Ventura; QUADROS, Abrahão Augusto Joviniano; CONDE, Mônica Tilli Reis Pessoa; OLIVEIRA, Acary Souza Bulle. The International Classification of Diseases, the Family of International Classifications, the ICD-11, and post-polio syndrome. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 71, n. 9A, p. 3-10, 2013. DOI: 10.1590/0004-282X20130111.

  6. BOOTH, F. W.; et al. Poliomyelitis and the postpolio syndrome. Journal/Review literature. A literatura descreve a deterioração tardia como podendo envolver atrofia, fraqueza, dor, fadiga e perda funcional.

  7. FARBU, E.; et al. Post-polio syndrome: diagnostic and clinical considerations. Os critérios enfatizam nova fraqueza muscular, fatigabilidade e exclusão de outras causas.

 

14 junho 2026

ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA PÓS-POLIOMIELITE: ASPECTOS CLÍNICOS, FUNCIONAIS, SOCIAIS E JURÍDICOS NA PROTEÇÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Autor:  Nilson Roberto dos Santos

 

RESUMO

 

A Síndrome Pós-Poliomielite (SPP)/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite consiste em uma condição neurológica tardia que acomete parte dos sobreviventes da poliomielite após décadas de estabilidade clínica. Entre suas manifestações mais incapacitantes destaca-se a atrofia muscular progressiva, caracterizada pela perda gradual de força muscular, fadiga intensa, dor e redução da capacidade funcional. O presente estudo tem como objetivo analisar os aspectos fisiopatológicos da atrofia muscular progressiva pós-poliomielite, seus impactos na funcionalidade e qualidade de vida, bem como os desafios enfrentados pelo sistema de saúde e pelo ordenamento jurídico brasileiro para a garantia dos direitos das pessoas afetadas. A metodologia utilizada consistiu em revisão bibliográfica narrativa baseada em literatura científica nacional e internacional, documentos oficiais e legislação vigente. Os resultados demonstram que a progressão tardia da perda neuronal compromete significativamente a autonomia dos indivíduos, exigindo acompanhamento multiprofissional permanente e políticas públicas específicas. Conclui-se que o reconhecimento da Síndrome Pós-Poliomielite como condição incapacitante é fundamental para assegurar a efetivação dos direitos previstos na legislação brasileira de proteção à pessoa com deficiência.

Palavras-chave: Síndrome Pós-Poliomielite; Atrofia Muscular; Pessoa com Deficiência; Reabilitação; Direitos Humanos.

 

ABSTRACT

 

Post-Polio Syndrome (PPS) is a late neurological condition affecting a portion of poliomyelitis survivors after decades of clinical stability. Among its most disabling manifestations is progressive muscular atrophy, characterized by gradual muscle weakness, fatigue, pain, and loss of functional capacity. This study aims to analyze the pathophysiological aspects of progressive muscular atrophy in post-polio syndrome, its impacts on functionality and quality of life, and the challenges faced by healthcare systems and Brazilian legislation in ensuring the rights of affected individuals. The methodology consisted of a narrative literature review based on national and international scientific publications, official documents, and current legislation. The findings indicate that late neuronal degeneration significantly compromises autonomy and social participation, requiring continuous multidisciplinary follow-up and specific public policies. The study concludes that recognition of Post-Polio Syndrome as a disabling condition is essential to guarantee the effectiveness of rights established under Brazilian disability legislation.

 

Keywords: Post-Polio Syndrome; Muscular Atrophy; Disability; Rehabilitation; Human Rights.

 

1 - INTRODUÇÃO

 A poliomielite representou uma das mais importantes causas de deficiência física no século XX. Antes da implementação das campanhas de vacinação em massa, milhares de pessoas foram acometidas por lesões neurológicas permanentes decorrentes da ação do poliovírus sobre os neurônios motores da medula espinhal.

 Embora a erradicação da doença tenha avançado significativamente em diversos países, seus sobreviventes continuam enfrentando consequências tardias. Entre essas condições destaca-se a Síndrome Pós-Poliomielite (SPP), reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma desordem neuromuscular que pode surgir décadas após a infecção inicial.

 A principal característica clínica da síndrome é o aparecimento de novos déficits neuromusculares após longo período de estabilidade funcional. A atrofia muscular progressiva constitui uma das manifestações mais relevantes, gerando impactos expressivos sobre a mobilidade, independência funcional e inclusão social dos indivíduos acometidos.

 Diante do envelhecimento da população sobrevivente da poliomielite, torna-se imprescindível compreender os mecanismos envolvidos na progressão da doença e seus reflexos na formulação de políticas públicas voltadas à pessoa com deficiência.

 

2 - METODOLOGIA

 

O presente estudo caracteriza-se como revisão bibliográfica narrativa.

Foram consultadas publicações científicas nacionais e internacionais, diretrizes clínicas, documentos do Ministério da Saúde, artigos indexados em bases de dados da área da saúde e literatura especializada relacionada à Síndrome Pós-Poliomielite.

A análise concentrou-se nos aspectos clínicos, funcionais, sociais e jurídicos relacionados à atrofia muscular progressiva pós-poliomielite.

 

3 - POLIOMIELITE E LESÃO NEUROMUSCULAR

 

A poliomielite é causada pelo poliovírus, pertencente à família Picornaviridae. Em sua forma paralítica, o vírus invade o sistema nervoso central, destruindo neurônios motores localizados principalmente nos cornos anteriores da medula espinhal.

Segundo Halstead (2006), a perda neuronal decorrente da infecção pode atingir até 50% das células motoras em determinados segmentos medulares.

Após a fase aguda, os neurônios remanescentes desenvolvem mecanismos compensatórios de reinervação, permitindo recuperação parcial da função muscular. Entretanto, essa adaptação não elimina completamente os efeitos da lesão original.

 

4 - FISIOPATOLOGIA DA ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA

 

A fisiopatologia da atrofia muscular progressiva na Síndrome Pós-Poliomielite está associada ao esgotamento gradual das unidades motoras remanescentes.

Durante décadas, os neurônios sobreviventes assumem a função daqueles destruídos pelo vírus, formando unidades motoras significativamente maiores do que as existentes em indivíduos sem histórico de poliomielite.

Com o envelhecimento biológico e a sobrecarga metabólica contínua, ocorre degeneração progressiva dessas estruturas, resultando em:

* desnervação muscular;

* redução da força muscular;

* perda de massa muscular;

* fadiga progressiva;

* limitação funcional crescente.

Esse processo caracteriza uma nova fase de deterioração neuromuscular distinta da infecção viral inicial.

 

5 - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

 

Os sintomas mais frequentemente observados incluem:

 

5.1 - Fraqueza Muscular Progressiva

 

A perda de força ocorre de forma lenta e gradual, podendo afetar músculos anteriormente comprometidos ou aparentemente preservados.

 

5.2 - Fadiga Crônica

 

A fadiga apresenta natureza multifatorial e constitui uma das principais causas de limitação funcional.

 

5.3 - Dor Musculoesquelética

 

Frequentemente relacionada às adaptações biomecânicas desenvolvidas ao longo dos anos, podendo envolver articulações, tendões e grupos musculares compensatórios.

 

5.4 - Atrofia Muscular[Nd2] 

 

Caracterizada pela redução progressiva do volume muscular em decorrência da perda de fibras funcionalmente inervadas.

 

5.5 - Alterações Respiratórias

 

Em pacientes com comprometimento prévio da musculatura respiratória podem surgir dificuldades ventilatórias e distúrbios do sono.

 

6 - IMPACTOS FUNCIONAIS E SOCIAIS

 

A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) estabelece que a deficiência deve ser compreendida não apenas pela presença de lesões corporais, mas também pelas limitações impostas à participação social.

Nesse contexto, a atrofia muscular progressiva afeta diretamente:

* mobilidade;

* trabalho;

* educação;

* participação política;

* vida comunitária;

* autonomia pessoal.

Muitos indivíduos necessitam retornar ao uso de órteses, bengalas, muletas ou cadeiras de rodas após anos de independência funcional.

O impacto psicológico também merece destaque, especialmente em razão da perda gradual de capacidades anteriormente preservadas.

 

7 - A SÍNDROME PÓS-POLIOMIELITE/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite e o DIREITO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

 

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional, estabelece que pessoas com impedimentos de longo prazo que interajam com barreiras sociais possuem proteção especial do Estado.

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) adota conceito semelhante ao reconhecer a deficiência como resultado da interação entre impedimentos e barreiras existentes na sociedade.

Nesse sentido, indivíduos acometidos pela Síndrome Pós-Poliomielite podem ser enquadrados legalmente como pessoas com deficiência quando a condição limitar sua participação plena e efetiva em igualdade de oportunidades.

Entre os direitos assegurados destacam-se:

* acessibilidade;

* atendimento prioritário;

* tecnologias assistivas;

* reabilitação;

* inclusão no mercado de trabalho;

* transporte acessível;

* proteção social.

 

8 - DESAFIOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

 

Apesar do reconhecimento científico da Síndrome Pós-Poliomielite/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite, ainda existem lacunas importantes na assistência prestada pelos sistemas de saúde.

Os principais desafios incluem:

* subdiagnóstico da condição;

* ausência de protocolos municipais específicos;

* insuficiência de centros especializados;

* dificuldade de acesso à reabilitação continuada;

* baixa produção de dados epidemiológicos.

A Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência deve incorporar estratégias específicas para acompanhamento dos sobreviventes da poliomielite.

 

9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A atrofia muscular progressiva pós-poliomielite constitui condição neurológica crônica de elevada relevância clínica e social. Seus efeitos ultrapassam a esfera biológica, repercutindo diretamente sobre a autonomia, a inclusão social e a dignidade da pessoa humana.

O fortalecimento das políticas públicas voltadas aos sobreviventes da poliomielite, aliado à capacitação dos profissionais de saúde e ao reconhecimento jurídico da condição, mostra-se fundamental para assegurar a efetividade dos direitos das pessoas afetadas.

A implementação de ações integradas entre saúde, assistência social e direitos humanos representa caminho indispensável para a promoção da qualidade de vida e da cidadania dessa população.

 

10 - ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA PÓS-POLIOMIELITE (CID-11 8B62): ASPECTOS NEUROLÓGICOS, FUNCIONAIS, SOCIAIS E JURÍDICOS NA PROTEÇÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

 

10.1 - Inclusão no referencial teórico

 

Segundo Oliveira e Maynard (2002), a Síndrome Pós-Poliomielite/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite caracteriza-se pelo aparecimento de nova fraqueza muscular e fadiga anormal após longo período de estabilidade clínica em indivíduos previamente acometidos pela poliomielite paralítica. Os autores destacam que a deterioração progressiva das unidades motoras remanescentes constitui o principal mecanismo fisiopatológico da condição.

Estudos conduzidos pelo grupo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), coordenado por Prof. Dr. Acary Souza Bulle Oliveira, demonstraram que a redução progressiva da força muscular representa uma das principais causas de perda funcional e limitação da participação social em sobreviventes da poliomielite.

 

11 - Novo capítulo: CID-11 e evolução da nomenclatura

 

Historicamente, a condição foi classificada na CID-10 sob o código G14, denominada Síndrome Pós-Poliomielite. Entretanto, durante os trabalhos preparatórios da CID-11, pesquisadores brasileiros vinculados à UNIFESP e à Universidade de São Paulo, entre eles Acary Souza Bulle Oliveira, Abrahão Augusto Juviniano Quadros, Mônica Tilli Reis Pessoa Conde, Heloisa Brunow Ventura Di Nubila e Ruy Laurenti, contribuíram para o aperfeiçoamento da classificação internacional da doença.

A CID-11 passou a adotar o código 8B62 – Post Polio Progressive Muscular Atrophy (PPMA), traduzido como Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite. A nova nomenclatura enfatiza a natureza neurodegenerativa progressiva da condição e sua principal manifestação clínica: a perda progressiva de força e massa muscular após décadas de estabilidade funcional.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa com Síndrome Pós-Poliomielite. Brasília: Ministério da Saúde.

 

OLIVEIRA, Acary Souza Bulle; MAYNARD, Frederick M. Síndrome Pós-Poliomielite: Aspectos Neurológicos. Revista Neurociências, 2002. Além disso, os trabalhos do neurologista brasileiro Acary Souza Bulle Oliveira são considerados fundamentais para a compreensão da doença no Brasil. Em seus estudos, ele descreve a SPP como uma desordem neurológica tardia caracterizada por nova fraqueza muscular, fatigabilidade anormal e risco de agravamento decorrente do excesso de uso muscular, destacando a necessidade de reabilitação cuidadosamente planejada.

 

CONDE, Mônica Tilli Reis Pessoa; QUADROS, Abrahão Augusto Juviniano; OLIVEIRA, Acary Souza Bulle et al. Frequency and Clinical Manifestations of Post-Poliomyelitis Syndrome in a Brazilian Tertiary Care Center. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2012.

 

LAURENTI, Ruy; DI NUBILA, Heloisa Brunow Ventura; QUADROS, Abrahão Augusto Juviniano; CONDE, Mônica Tilli Reis Pessoa; OLIVEIRA, Acary Souza Bulle. The International Classification of Diseases, the ICD-11 and Post-Polio Syndrome. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2013.

 

OLIVEIRA, Acary Souza Bulle et al. Segmental Areas of Denervation in Post-Polio Syndrome. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2024.

 

HALSTEAD, L. S. Post-Polio Syndrome. American Journal of Physical Medicine & Rehabilitation.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF. Genebra: OMS.

 

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

 

MARCH OF DIMES. Identifying Best Practices in Diagnosis and Care of Post-Polio Syndrome.

 

 


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 [Nd2]

15 janeiro 2026

Poliomielite e o nascimento da reabilitação moderna: uma narrativa histórica.

Durante grande parte do século XX, a poliomielite foi uma das doenças mais temidas no mundo. Causada por um vírus altamente contagioso, a pólio atingia principalmente crianças, provocando paralisias súbitas, permanentes e, em muitos casos, fatais. Mais do que uma crise sanitária, a poliomielite se tornou um marco histórico que redefiniu a forma como a sociedade passou a compreender a deficiência, a recuperação funcional e o próprio conceito de reabilitação.

Um vírus invisível mudou o destino de milhões de corpos. Ele não escolhia classe social, país ou idade. Entrava em lares, escolas, praças… e deixava marcas para toda a vida. Seu nome: poliomielite.

Antes das grandes epidemias de pólio, a medicina tinha uma visão limitada sobre a recuperação de pessoas com sequelas motoras. A maioria dos pacientes com paralisias era considerada “irrecuperável”, destinada à imobilidade e à exclusão social. A pólio rompeu esse paradigma ao atingir milhares de crianças e jovens saudáveis, obrigando a ciência e os sistemas de saúde a buscar soluções para devolver autonomia, mobilidade e dignidade a essas pessoas.

A poliomielite era mais do que uma doença. Era um medo coletivo. Pais observavam filhos saudáveis acordarem paralisados. Crianças perdiam a capacidade de andar, respirar, sustentar o próprio corpo. O futuro, de repente, se tornava incerto.

As epidemias se intensificaram nas décadas de 1930, 1940 e 1950, especialmente na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Hospitais passaram a ser ocupados por fileiras de crianças em pulmões de aço, aparelhos criados para manter a respiração de pacientes com paralisia dos músculos respiratórios. Esses ambientes hospitalares foram os embriões das futuras Unidades de Terapia Intensiva, consolidando a ideia de cuidado contínuo, monitoramento e suporte vital especializado.

Quando a pólio atingia os músculos respiratórios, o corpo precisava de uma máquina para sobreviver. Assim nasceram os pulmões de aço. Fileiras de pessoas respirando por aparelhos. Era o início do cuidado intensivo. Sem saber, a humanidade criava as primeiras UTIs.

Paralelamente, surgia um novo campo do conhecimento: a reabilitação. Médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e engenheiros passaram a atuar de forma integrada. A fisioterapia moderna ganhou força com métodos de fortalecimento muscular, alongamento, reeducação motora e treino funcional. A terapia ocupacional passou a trabalhar a independência nas atividades da vida diária. A ortopedia desenvolveu órteses, próteses e adaptações para permitir a locomoção e a postura.

A medicina percebeu que sobreviver não era suficiente. Era preciso viver. Foi nesse momento que a reabilitação deixou de ser improviso e se tornou ciência. A fisioterapia moderna nasceu nos corpos marcados pela pólio. A terapia ocupacional nasceu do desejo de devolver autonomia. A ortopedia nasceu da necessidade de sustentar corpos que insistiam em caminhar.

A pólio também impulsionou a criação de centros especializados de reabilitação, escolas adaptadas, oficinas ortopédicas e programas de inclusão social. Pela primeira vez, a deficiência deixou de ser vista apenas como uma condição clínica e passou a ser compreendida como uma questão social, educacional e de direitos humanos.

A poliomielite não criou apenas técnicas médicas. Criou consciência social. Criou a noção de que deficiência não é sinônimo de incapacidade. Criou o debate sobre acessibilidade, educação inclusiva e direitos humanos.

Com a introdução das vacinas de Salk (1955) e Sabin (1961), a incidência da poliomielite caiu drasticamente em todo o mundo. No entanto, as sequelas permaneceram em milhões de sobreviventes, que continuaram a demandar acompanhamento, adaptação e políticas públicas. Décadas depois, surgiu o reconhecimento da Síndrome Pós poliomielite, reafirmando que a pólio não terminava com a infância, mas acompanhava a pessoa ao longo da vida.

Quando as vacinas chegaram, o mundo respirou aliviado. A pólio começou a desaparecer. Mas os corpos que ela tocou continuaram presentes. A história não terminou. Apenas mudou de capítulo.

Assim, a história da poliomielite é também a história da reabilitação. Foi a partir da dor coletiva provocada pela pólio que se consolidaram conceitos fundamentais como funcionalidade, autonomia, inclusão, acessibilidade e cuidado multiprofissional. A reabilitação deixou de ser um complemento e passou a ser um direito.

A poliomielite ensinou ao mundo que a fragilidade também constrói. Que da dor nasce ciência. Que da perda nasce direito. Que da limitação nasce humanidade.

 

Hoje, quando a pólio está próxima da erradicação global, sua memória permanece viva nos corpos, nas histórias e nas conquistas sociais das pessoas com deficiência. A poliomielite não apenas marcou gerações — ela construiu os alicerces da reabilitação moderna e transformou definitivamente a relação entre medicina, sociedade e dignidade humana.

Décadas depois, muitos sobreviventes enfrentariam a Síndrome Pós poliomielite ou Atrofia Muscular Progressiva Pós Poliomielite. A pólio, que parecia passado, voltava a lembrar que ela nunca foi apenas uma doença infantil. Ela era uma marca para toda a vida.

A pólio quase desapareceu.

Mas a reabilitação que ela criou permanece.

Em cada rampa, em cada prótese, em cada fisioterapia, em cada direito conquistado…

existe a memória silenciosa de um vírus que transformou o mundo.

Erradicar a poliomielite é proteger o futuro.

Lembrar da poliomielite é honrar a história.

08 janeiro 2026

A Poliomielite como Marco Fundador das Unidades de Terapia Intensiva: Uma Análise Histórico-Científica


Resumo


A poliomielite foi uma das principais responsáveis por epidemias de grande impacto social e sanitário no século XX. Além das sequelas neuromotoras amplamente conhecidas, a doença provocou elevado número de casos de insuficiência respiratória aguda, o que exigiu respostas médicas inovadoras. Este estudo analisa, sob perspectiva histórico-científica, a relação entre as epidemias de poliomielite e o surgimento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), destacando o papel da epidemia de Copenhague em 1952 como evento fundador da medicina intensiva moderna. Conclui-se que a poliomielite não apenas impulsionou avanços tecnológicos, mas também redefiniu a organização hospitalar e a prática clínica do cuidado ao paciente crítico.


Descritores: Poliomielite; Terapia Intensiva; História da Medicina; Ventilação Mecânica; Cuidados Críticos.


Abstract


Poliomyelitis was responsible for major epidemics with significant social and health impacts throughout the twentieth century. Beyond its well-known neuromotor sequelae, the disease caused a high incidence of acute respiratory failure, demanding innovative medical responses. This study analyzes, from a historical-scientific perspective, the relationship between poliomyelitis epidemics and the emergence of Intensive Care Units (ICUs), highlighting the Copenhagen epidemic of 1952 as a foundational event in modern critical care medicine. It is concluded that poliomyelitis not only stimulated technological advances but also redefined hospital organization and clinical practice in critical care.


Keywords: Poliomyelitis; Intensive Care Units; History of Medicine; Mechanical Ventilation; Critical Care.


1. Introdução

A poliomielite representou uma das mais relevantes emergências sanitárias do século XX, sendo responsável por elevadas taxas de morbimortalidade em diversos países. Antes da introdução da vacinação em larga escala, a doença acometia principalmente crianças, deixando um grande contingente de sobreviventes com sequelas motoras permanentes.

Entretanto, o impacto da poliomielite ultrapassou o campo da neurologia e da reabilitação. A forma respiratória da doença expôs as limitações da assistência hospitalar da época e impulsionou transformações estruturais que culminaram na criação das Unidades de Terapia Intensiva.

2. Metodologia

Trata-se de um estudo de natureza histórico-descritiva, baseado em revisão narrativa da literatura científica, livros de história da medicina e documentos institucionais. Foram analisadas publicações nacionais e internacionais que abordam a evolução da terapia intensiva, a história da poliomielite e o desenvolvimento da ventilação mecânica.


3. A Poliomielite e o Comprometimento Respiratório

A poliomielite, causada por um enterovírus, apresenta manifestações clínicas variáveis. Nas formas bulbar e bulboespinhal, ocorre comprometimento dos centros respiratórios e dos músculos responsáveis pela ventilação, resultando em insuficiência respiratória aguda potencialmente fatal.


Até meados do século XX, o principal recurso disponível era o pulmão de aço, equipamento de ventilação por pressão negativa. Apesar de sua relevância histórica, esse dispositivo apresentava importantes limitações técnicas e operacionais, especialmente durante surtos epidêmicos.

4. A Epidemia de 1952 em Copenhague

Em 1952, a cidade de Copenhague enfrentou uma das mais severas epidemias de poliomielite já registradas. A mortalidade entre pacientes com insuficiência respiratória ultrapassava 80%.


O anestesiologista Björn Ibsen introduziu uma abordagem inovadora: ventilação com pressão positiva por meio de traqueostomia e ventilação manual contínua. Essa estratégia reduziu drasticamente a mortalidade para aproximadamente 25%, demonstrando a eficácia do suporte ventilatória intensivo aliado à vigilância contínua.


5. Consolidação do Conceito de Terapia Intensiva

O sucesso da experiência dinamarquesa evidenciou a necessidade de reorganização dos serviços hospitalares. A partir desse contexto, foram estabelecidos os princípios fundamentais das UTIs:

  • Centralização de pacientes críticos;
  • Monitorização contínua;
  • Atuação multiprofissional;
  • Protocolização dos cuidados.

Em 1953, foi criada a primeira unidade estruturada segundo esses princípios, considerada a precursora das UTIs modernas.



6. Impacto na Prática Médica Contemporânea

A poliomielite foi determinante para o desenvolvimento de áreas fundamentais da medicina, como:

  • Ventilação mecânica invasiva e não invasiva;
  • Monitorização hemodinâmica;
  • Anestesiologia moderna;
  • Medicina intensiva como especialidade;
  • Organização hospitalar em níveis de complexidade.

Esses avanços permanecem como pilares do cuidado ao paciente crítico até os dias atuais.


7. Discussão

Embora atualmente a poliomielite esteja praticamente erradicada em grande parte do mundo, seu legado histórico permanece vivo nas UTIs. A doença revelou a fragilidade dos sistemas de saúde frente a crises respiratórias em massa, antecipando desafios que voltariam a ocorrer em pandemias posteriores, como a COVID-19.

Assim, a história da terapia intensiva não pode ser compreendida sem o reconhecimento do papel central desempenhado pela poliomielite.


8. Conclusão

A poliomielite foi mais do que uma enfermidade devastadora: foi o catalisador de uma das maiores transformações da medicina hospitalar. A criação das Unidades de Terapia Intensiva representa um dos seus mais importantes legados históricos.

Reconhecer essa origem não apenas preserva a memória científica, mas também reforça a importância da vigilância epidemiológica, da inovação médica e da organização dos sistemas de saúde frente às crises sanitárias.

Referências (modelo Vancouver)



  1. Ibsen B. The anesthetist’s viewpoint on the treatment of respiratory complications in poliomyelitis. Proc R Soc Med. 1954.
  2. Safar P. History of critical care medicine. Crit Care Med. 1981.
  3. Vincent JL. Critical care: origins and evolution. Crit Care. 2013.
  4. World Health Organization. Poliomyelitis: historical overview.
  5. Reis J, et al. História da terapia intensiva. Rev Bras Ter