14 junho 2026

ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA PÓS-POLIOMIELITE: ASPECTOS CLÍNICOS, FUNCIONAIS, SOCIAIS E JURÍDICOS NA PROTEÇÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

Autor:  Nilson Roberto dos Santos

 

RESUMO

 

A Síndrome Pós-Poliomielite (SPP)/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite consiste em uma condição neurológica tardia que acomete parte dos sobreviventes da poliomielite após décadas de estabilidade clínica. Entre suas manifestações mais incapacitantes destaca-se a atrofia muscular progressiva, caracterizada pela perda gradual de força muscular, fadiga intensa, dor e redução da capacidade funcional. O presente estudo tem como objetivo analisar os aspectos fisiopatológicos da atrofia muscular progressiva pós-poliomielite, seus impactos na funcionalidade e qualidade de vida, bem como os desafios enfrentados pelo sistema de saúde e pelo ordenamento jurídico brasileiro para a garantia dos direitos das pessoas afetadas. A metodologia utilizada consistiu em revisão bibliográfica narrativa baseada em literatura científica nacional e internacional, documentos oficiais e legislação vigente. Os resultados demonstram que a progressão tardia da perda neuronal compromete significativamente a autonomia dos indivíduos, exigindo acompanhamento multiprofissional permanente e políticas públicas específicas. Conclui-se que o reconhecimento da Síndrome Pós-Poliomielite como condição incapacitante é fundamental para assegurar a efetivação dos direitos previstos na legislação brasileira de proteção à pessoa com deficiência.

Palavras-chave: Síndrome Pós-Poliomielite; Atrofia Muscular; Pessoa com Deficiência; Reabilitação; Direitos Humanos.

 

ABSTRACT

 

Post-Polio Syndrome (PPS) is a late neurological condition affecting a portion of poliomyelitis survivors after decades of clinical stability. Among its most disabling manifestations is progressive muscular atrophy, characterized by gradual muscle weakness, fatigue, pain, and loss of functional capacity. This study aims to analyze the pathophysiological aspects of progressive muscular atrophy in post-polio syndrome, its impacts on functionality and quality of life, and the challenges faced by healthcare systems and Brazilian legislation in ensuring the rights of affected individuals. The methodology consisted of a narrative literature review based on national and international scientific publications, official documents, and current legislation. The findings indicate that late neuronal degeneration significantly compromises autonomy and social participation, requiring continuous multidisciplinary follow-up and specific public policies. The study concludes that recognition of Post-Polio Syndrome as a disabling condition is essential to guarantee the effectiveness of rights established under Brazilian disability legislation.

 

Keywords: Post-Polio Syndrome; Muscular Atrophy; Disability; Rehabilitation; Human Rights.

 

1 - INTRODUÇÃO

 A poliomielite representou uma das mais importantes causas de deficiência física no século XX. Antes da implementação das campanhas de vacinação em massa, milhares de pessoas foram acometidas por lesões neurológicas permanentes decorrentes da ação do poliovírus sobre os neurônios motores da medula espinhal.

 Embora a erradicação da doença tenha avançado significativamente em diversos países, seus sobreviventes continuam enfrentando consequências tardias. Entre essas condições destaca-se a Síndrome Pós-Poliomielite (SPP), reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma desordem neuromuscular que pode surgir décadas após a infecção inicial.

 A principal característica clínica da síndrome é o aparecimento de novos déficits neuromusculares após longo período de estabilidade funcional. A atrofia muscular progressiva constitui uma das manifestações mais relevantes, gerando impactos expressivos sobre a mobilidade, independência funcional e inclusão social dos indivíduos acometidos.

 Diante do envelhecimento da população sobrevivente da poliomielite, torna-se imprescindível compreender os mecanismos envolvidos na progressão da doença e seus reflexos na formulação de políticas públicas voltadas à pessoa com deficiência.

 

2 - METODOLOGIA

 

O presente estudo caracteriza-se como revisão bibliográfica narrativa.

Foram consultadas publicações científicas nacionais e internacionais, diretrizes clínicas, documentos do Ministério da Saúde, artigos indexados em bases de dados da área da saúde e literatura especializada relacionada à Síndrome Pós-Poliomielite.

A análise concentrou-se nos aspectos clínicos, funcionais, sociais e jurídicos relacionados à atrofia muscular progressiva pós-poliomielite.

 

3 - POLIOMIELITE E LESÃO NEUROMUSCULAR

 

A poliomielite é causada pelo poliovírus, pertencente à família Picornaviridae. Em sua forma paralítica, o vírus invade o sistema nervoso central, destruindo neurônios motores localizados principalmente nos cornos anteriores da medula espinhal.

Segundo Halstead (2006), a perda neuronal decorrente da infecção pode atingir até 50% das células motoras em determinados segmentos medulares.

Após a fase aguda, os neurônios remanescentes desenvolvem mecanismos compensatórios de reinervação, permitindo recuperação parcial da função muscular. Entretanto, essa adaptação não elimina completamente os efeitos da lesão original.

 

4 - FISIOPATOLOGIA DA ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA

 

A fisiopatologia da atrofia muscular progressiva na Síndrome Pós-Poliomielite está associada ao esgotamento gradual das unidades motoras remanescentes.

Durante décadas, os neurônios sobreviventes assumem a função daqueles destruídos pelo vírus, formando unidades motoras significativamente maiores do que as existentes em indivíduos sem histórico de poliomielite.

Com o envelhecimento biológico e a sobrecarga metabólica contínua, ocorre degeneração progressiva dessas estruturas, resultando em:

* desnervação muscular;

* redução da força muscular;

* perda de massa muscular;

* fadiga progressiva;

* limitação funcional crescente.

Esse processo caracteriza uma nova fase de deterioração neuromuscular distinta da infecção viral inicial.

 

5 - MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

 

Os sintomas mais frequentemente observados incluem:

 

5.1 - Fraqueza Muscular Progressiva

 

A perda de força ocorre de forma lenta e gradual, podendo afetar músculos anteriormente comprometidos ou aparentemente preservados.

 

5.2 - Fadiga Crônica

 

A fadiga apresenta natureza multifatorial e constitui uma das principais causas de limitação funcional.

 

5.3 - Dor Musculoesquelética

 

Frequentemente relacionada às adaptações biomecânicas desenvolvidas ao longo dos anos, podendo envolver articulações, tendões e grupos musculares compensatórios.

 

5.4 - Atrofia Muscular[Nd2] 

 

Caracterizada pela redução progressiva do volume muscular em decorrência da perda de fibras funcionalmente inervadas.

 

5.5 - Alterações Respiratórias

 

Em pacientes com comprometimento prévio da musculatura respiratória podem surgir dificuldades ventilatórias e distúrbios do sono.

 

6 - IMPACTOS FUNCIONAIS E SOCIAIS

 

A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) estabelece que a deficiência deve ser compreendida não apenas pela presença de lesões corporais, mas também pelas limitações impostas à participação social.

Nesse contexto, a atrofia muscular progressiva afeta diretamente:

* mobilidade;

* trabalho;

* educação;

* participação política;

* vida comunitária;

* autonomia pessoal.

Muitos indivíduos necessitam retornar ao uso de órteses, bengalas, muletas ou cadeiras de rodas após anos de independência funcional.

O impacto psicológico também merece destaque, especialmente em razão da perda gradual de capacidades anteriormente preservadas.

 

7 - A SÍNDROME PÓS-POLIOMIELITE/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite e o DIREITO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

 

A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional, estabelece que pessoas com impedimentos de longo prazo que interajam com barreiras sociais possuem proteção especial do Estado.

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) adota conceito semelhante ao reconhecer a deficiência como resultado da interação entre impedimentos e barreiras existentes na sociedade.

Nesse sentido, indivíduos acometidos pela Síndrome Pós-Poliomielite podem ser enquadrados legalmente como pessoas com deficiência quando a condição limitar sua participação plena e efetiva em igualdade de oportunidades.

Entre os direitos assegurados destacam-se:

* acessibilidade;

* atendimento prioritário;

* tecnologias assistivas;

* reabilitação;

* inclusão no mercado de trabalho;

* transporte acessível;

* proteção social.

 

8 - DESAFIOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

 

Apesar do reconhecimento científico da Síndrome Pós-Poliomielite/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite, ainda existem lacunas importantes na assistência prestada pelos sistemas de saúde.

Os principais desafios incluem:

* subdiagnóstico da condição;

* ausência de protocolos municipais específicos;

* insuficiência de centros especializados;

* dificuldade de acesso à reabilitação continuada;

* baixa produção de dados epidemiológicos.

A Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência deve incorporar estratégias específicas para acompanhamento dos sobreviventes da poliomielite.

 

9 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A atrofia muscular progressiva pós-poliomielite constitui condição neurológica crônica de elevada relevância clínica e social. Seus efeitos ultrapassam a esfera biológica, repercutindo diretamente sobre a autonomia, a inclusão social e a dignidade da pessoa humana.

O fortalecimento das políticas públicas voltadas aos sobreviventes da poliomielite, aliado à capacitação dos profissionais de saúde e ao reconhecimento jurídico da condição, mostra-se fundamental para assegurar a efetividade dos direitos das pessoas afetadas.

A implementação de ações integradas entre saúde, assistência social e direitos humanos representa caminho indispensável para a promoção da qualidade de vida e da cidadania dessa população.

 

10 - ATROFIA MUSCULAR PROGRESSIVA PÓS-POLIOMIELITE (CID-11 8B62): ASPECTOS NEUROLÓGICOS, FUNCIONAIS, SOCIAIS E JURÍDICOS NA PROTEÇÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

 

10.1 - Inclusão no referencial teórico

 

Segundo Oliveira e Maynard (2002), a Síndrome Pós-Poliomielite/Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite caracteriza-se pelo aparecimento de nova fraqueza muscular e fadiga anormal após longo período de estabilidade clínica em indivíduos previamente acometidos pela poliomielite paralítica. Os autores destacam que a deterioração progressiva das unidades motoras remanescentes constitui o principal mecanismo fisiopatológico da condição.

Estudos conduzidos pelo grupo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), coordenado por Prof. Dr. Acary Souza Bulle Oliveira, demonstraram que a redução progressiva da força muscular representa uma das principais causas de perda funcional e limitação da participação social em sobreviventes da poliomielite.

 

11 - Novo capítulo: CID-11 e evolução da nomenclatura

 

Historicamente, a condição foi classificada na CID-10 sob o código G14, denominada Síndrome Pós-Poliomielite. Entretanto, durante os trabalhos preparatórios da CID-11, pesquisadores brasileiros vinculados à UNIFESP e à Universidade de São Paulo, entre eles Acary Souza Bulle Oliveira, Abrahão Augusto Juviniano Quadros, Mônica Tilli Reis Pessoa Conde, Heloisa Brunow Ventura Di Nubila e Ruy Laurenti, contribuíram para o aperfeiçoamento da classificação internacional da doença.

A CID-11 passou a adotar o código 8B62 – Post Polio Progressive Muscular Atrophy (PPMA), traduzido como Atrofia Muscular Progressiva Pós-Poliomielite. A nova nomenclatura enfatiza a natureza neurodegenerativa progressiva da condição e sua principal manifestação clínica: a perda progressiva de força e massa muscular após décadas de estabilidade funcional.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Pessoa com Síndrome Pós-Poliomielite. Brasília: Ministério da Saúde.

 

OLIVEIRA, Acary Souza Bulle; MAYNARD, Frederick M. Síndrome Pós-Poliomielite: Aspectos Neurológicos. Revista Neurociências, 2002. Além disso, os trabalhos do neurologista brasileiro Acary Souza Bulle Oliveira são considerados fundamentais para a compreensão da doença no Brasil. Em seus estudos, ele descreve a SPP como uma desordem neurológica tardia caracterizada por nova fraqueza muscular, fatigabilidade anormal e risco de agravamento decorrente do excesso de uso muscular, destacando a necessidade de reabilitação cuidadosamente planejada.

 

CONDE, Mônica Tilli Reis Pessoa; QUADROS, Abrahão Augusto Juviniano; OLIVEIRA, Acary Souza Bulle et al. Frequency and Clinical Manifestations of Post-Poliomyelitis Syndrome in a Brazilian Tertiary Care Center. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2012.

 

LAURENTI, Ruy; DI NUBILA, Heloisa Brunow Ventura; QUADROS, Abrahão Augusto Juviniano; CONDE, Mônica Tilli Reis Pessoa; OLIVEIRA, Acary Souza Bulle. The International Classification of Diseases, the ICD-11 and Post-Polio Syndrome. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2013.

 

OLIVEIRA, Acary Souza Bulle et al. Segmental Areas of Denervation in Post-Polio Syndrome. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2024.

 

HALSTEAD, L. S. Post-Polio Syndrome. American Journal of Physical Medicine & Rehabilitation.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF. Genebra: OMS.

 

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

 

MARCH OF DIMES. Identifying Best Practices in Diagnosis and Care of Post-Polio Syndrome.

 

 


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15 janeiro 2026

Poliomielite e o nascimento da reabilitação moderna: uma narrativa histórica.

Durante grande parte do século XX, a poliomielite foi uma das doenças mais temidas no mundo. Causada por um vírus altamente contagioso, a pólio atingia principalmente crianças, provocando paralisias súbitas, permanentes e, em muitos casos, fatais. Mais do que uma crise sanitária, a poliomielite se tornou um marco histórico que redefiniu a forma como a sociedade passou a compreender a deficiência, a recuperação funcional e o próprio conceito de reabilitação.

Um vírus invisível mudou o destino de milhões de corpos. Ele não escolhia classe social, país ou idade. Entrava em lares, escolas, praças… e deixava marcas para toda a vida. Seu nome: poliomielite.

Antes das grandes epidemias de pólio, a medicina tinha uma visão limitada sobre a recuperação de pessoas com sequelas motoras. A maioria dos pacientes com paralisias era considerada “irrecuperável”, destinada à imobilidade e à exclusão social. A pólio rompeu esse paradigma ao atingir milhares de crianças e jovens saudáveis, obrigando a ciência e os sistemas de saúde a buscar soluções para devolver autonomia, mobilidade e dignidade a essas pessoas.

A poliomielite era mais do que uma doença. Era um medo coletivo. Pais observavam filhos saudáveis acordarem paralisados. Crianças perdiam a capacidade de andar, respirar, sustentar o próprio corpo. O futuro, de repente, se tornava incerto.

As epidemias se intensificaram nas décadas de 1930, 1940 e 1950, especialmente na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Hospitais passaram a ser ocupados por fileiras de crianças em pulmões de aço, aparelhos criados para manter a respiração de pacientes com paralisia dos músculos respiratórios. Esses ambientes hospitalares foram os embriões das futuras Unidades de Terapia Intensiva, consolidando a ideia de cuidado contínuo, monitoramento e suporte vital especializado.

Quando a pólio atingia os músculos respiratórios, o corpo precisava de uma máquina para sobreviver. Assim nasceram os pulmões de aço. Fileiras de pessoas respirando por aparelhos. Era o início do cuidado intensivo. Sem saber, a humanidade criava as primeiras UTIs.

Paralelamente, surgia um novo campo do conhecimento: a reabilitação. Médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e engenheiros passaram a atuar de forma integrada. A fisioterapia moderna ganhou força com métodos de fortalecimento muscular, alongamento, reeducação motora e treino funcional. A terapia ocupacional passou a trabalhar a independência nas atividades da vida diária. A ortopedia desenvolveu órteses, próteses e adaptações para permitir a locomoção e a postura.

A medicina percebeu que sobreviver não era suficiente. Era preciso viver. Foi nesse momento que a reabilitação deixou de ser improviso e se tornou ciência. A fisioterapia moderna nasceu nos corpos marcados pela pólio. A terapia ocupacional nasceu do desejo de devolver autonomia. A ortopedia nasceu da necessidade de sustentar corpos que insistiam em caminhar.

A pólio também impulsionou a criação de centros especializados de reabilitação, escolas adaptadas, oficinas ortopédicas e programas de inclusão social. Pela primeira vez, a deficiência deixou de ser vista apenas como uma condição clínica e passou a ser compreendida como uma questão social, educacional e de direitos humanos.

A poliomielite não criou apenas técnicas médicas. Criou consciência social. Criou a noção de que deficiência não é sinônimo de incapacidade. Criou o debate sobre acessibilidade, educação inclusiva e direitos humanos.

Com a introdução das vacinas de Salk (1955) e Sabin (1961), a incidência da poliomielite caiu drasticamente em todo o mundo. No entanto, as sequelas permaneceram em milhões de sobreviventes, que continuaram a demandar acompanhamento, adaptação e políticas públicas. Décadas depois, surgiu o reconhecimento da Síndrome Pós poliomielite, reafirmando que a pólio não terminava com a infância, mas acompanhava a pessoa ao longo da vida.

Quando as vacinas chegaram, o mundo respirou aliviado. A pólio começou a desaparecer. Mas os corpos que ela tocou continuaram presentes. A história não terminou. Apenas mudou de capítulo.

Assim, a história da poliomielite é também a história da reabilitação. Foi a partir da dor coletiva provocada pela pólio que se consolidaram conceitos fundamentais como funcionalidade, autonomia, inclusão, acessibilidade e cuidado multiprofissional. A reabilitação deixou de ser um complemento e passou a ser um direito.

A poliomielite ensinou ao mundo que a fragilidade também constrói. Que da dor nasce ciência. Que da perda nasce direito. Que da limitação nasce humanidade.

 

Hoje, quando a pólio está próxima da erradicação global, sua memória permanece viva nos corpos, nas histórias e nas conquistas sociais das pessoas com deficiência. A poliomielite não apenas marcou gerações — ela construiu os alicerces da reabilitação moderna e transformou definitivamente a relação entre medicina, sociedade e dignidade humana.

Décadas depois, muitos sobreviventes enfrentariam a Síndrome Pós poliomielite ou Atrofia Muscular Progressiva Pós Poliomielite. A pólio, que parecia passado, voltava a lembrar que ela nunca foi apenas uma doença infantil. Ela era uma marca para toda a vida.

A pólio quase desapareceu.

Mas a reabilitação que ela criou permanece.

Em cada rampa, em cada prótese, em cada fisioterapia, em cada direito conquistado…

existe a memória silenciosa de um vírus que transformou o mundo.

Erradicar a poliomielite é proteger o futuro.

Lembrar da poliomielite é honrar a história.

08 janeiro 2026

A Poliomielite como Marco Fundador das Unidades de Terapia Intensiva: Uma Análise Histórico-Científica


Resumo


A poliomielite foi uma das principais responsáveis por epidemias de grande impacto social e sanitário no século XX. Além das sequelas neuromotoras amplamente conhecidas, a doença provocou elevado número de casos de insuficiência respiratória aguda, o que exigiu respostas médicas inovadoras. Este estudo analisa, sob perspectiva histórico-científica, a relação entre as epidemias de poliomielite e o surgimento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), destacando o papel da epidemia de Copenhague em 1952 como evento fundador da medicina intensiva moderna. Conclui-se que a poliomielite não apenas impulsionou avanços tecnológicos, mas também redefiniu a organização hospitalar e a prática clínica do cuidado ao paciente crítico.


Descritores: Poliomielite; Terapia Intensiva; História da Medicina; Ventilação Mecânica; Cuidados Críticos.


Abstract


Poliomyelitis was responsible for major epidemics with significant social and health impacts throughout the twentieth century. Beyond its well-known neuromotor sequelae, the disease caused a high incidence of acute respiratory failure, demanding innovative medical responses. This study analyzes, from a historical-scientific perspective, the relationship between poliomyelitis epidemics and the emergence of Intensive Care Units (ICUs), highlighting the Copenhagen epidemic of 1952 as a foundational event in modern critical care medicine. It is concluded that poliomyelitis not only stimulated technological advances but also redefined hospital organization and clinical practice in critical care.


Keywords: Poliomyelitis; Intensive Care Units; History of Medicine; Mechanical Ventilation; Critical Care.


1. Introdução

A poliomielite representou uma das mais relevantes emergências sanitárias do século XX, sendo responsável por elevadas taxas de morbimortalidade em diversos países. Antes da introdução da vacinação em larga escala, a doença acometia principalmente crianças, deixando um grande contingente de sobreviventes com sequelas motoras permanentes.

Entretanto, o impacto da poliomielite ultrapassou o campo da neurologia e da reabilitação. A forma respiratória da doença expôs as limitações da assistência hospitalar da época e impulsionou transformações estruturais que culminaram na criação das Unidades de Terapia Intensiva.

2. Metodologia

Trata-se de um estudo de natureza histórico-descritiva, baseado em revisão narrativa da literatura científica, livros de história da medicina e documentos institucionais. Foram analisadas publicações nacionais e internacionais que abordam a evolução da terapia intensiva, a história da poliomielite e o desenvolvimento da ventilação mecânica.


3. A Poliomielite e o Comprometimento Respiratório

A poliomielite, causada por um enterovírus, apresenta manifestações clínicas variáveis. Nas formas bulbar e bulboespinhal, ocorre comprometimento dos centros respiratórios e dos músculos responsáveis pela ventilação, resultando em insuficiência respiratória aguda potencialmente fatal.


Até meados do século XX, o principal recurso disponível era o pulmão de aço, equipamento de ventilação por pressão negativa. Apesar de sua relevância histórica, esse dispositivo apresentava importantes limitações técnicas e operacionais, especialmente durante surtos epidêmicos.

4. A Epidemia de 1952 em Copenhague

Em 1952, a cidade de Copenhague enfrentou uma das mais severas epidemias de poliomielite já registradas. A mortalidade entre pacientes com insuficiência respiratória ultrapassava 80%.


O anestesiologista Björn Ibsen introduziu uma abordagem inovadora: ventilação com pressão positiva por meio de traqueostomia e ventilação manual contínua. Essa estratégia reduziu drasticamente a mortalidade para aproximadamente 25%, demonstrando a eficácia do suporte ventilatória intensivo aliado à vigilância contínua.


5. Consolidação do Conceito de Terapia Intensiva

O sucesso da experiência dinamarquesa evidenciou a necessidade de reorganização dos serviços hospitalares. A partir desse contexto, foram estabelecidos os princípios fundamentais das UTIs:

  • Centralização de pacientes críticos;
  • Monitorização contínua;
  • Atuação multiprofissional;
  • Protocolização dos cuidados.

Em 1953, foi criada a primeira unidade estruturada segundo esses princípios, considerada a precursora das UTIs modernas.



6. Impacto na Prática Médica Contemporânea

A poliomielite foi determinante para o desenvolvimento de áreas fundamentais da medicina, como:

  • Ventilação mecânica invasiva e não invasiva;
  • Monitorização hemodinâmica;
  • Anestesiologia moderna;
  • Medicina intensiva como especialidade;
  • Organização hospitalar em níveis de complexidade.

Esses avanços permanecem como pilares do cuidado ao paciente crítico até os dias atuais.


7. Discussão

Embora atualmente a poliomielite esteja praticamente erradicada em grande parte do mundo, seu legado histórico permanece vivo nas UTIs. A doença revelou a fragilidade dos sistemas de saúde frente a crises respiratórias em massa, antecipando desafios que voltariam a ocorrer em pandemias posteriores, como a COVID-19.

Assim, a história da terapia intensiva não pode ser compreendida sem o reconhecimento do papel central desempenhado pela poliomielite.


8. Conclusão

A poliomielite foi mais do que uma enfermidade devastadora: foi o catalisador de uma das maiores transformações da medicina hospitalar. A criação das Unidades de Terapia Intensiva representa um dos seus mais importantes legados históricos.

Reconhecer essa origem não apenas preserva a memória científica, mas também reforça a importância da vigilância epidemiológica, da inovação médica e da organização dos sistemas de saúde frente às crises sanitárias.

Referências (modelo Vancouver)



  1. Ibsen B. The anesthetist’s viewpoint on the treatment of respiratory complications in poliomyelitis. Proc R Soc Med. 1954.
  2. Safar P. History of critical care medicine. Crit Care Med. 1981.
  3. Vincent JL. Critical care: origins and evolution. Crit Care. 2013.
  4. World Health Organization. Poliomyelitis: historical overview.
  5. Reis J, et al. História da terapia intensiva. Rev Bras Ter 


06 janeiro 2026

11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11)

 

8B62 - Atrofia muscular progressiva pós pólio

URI no Fundamento: http://id.who.int/icd/entity/2018885243

Código: 8B62

Descrição

Os critérios diagnósticos para atrofia muscular progressiva pós-pólio (PPMA) são: uma história confiável de poliomielite com recuperação parcial da função, um período mínimo de estabilização de 10 anos e o desenvolvimento subsequente de fraqueza muscular progressiva. Sintomas de fraqueza, atrofia e fadiga de músculos previamente afetados podem ser observados. Esses sintomas também podem ser notados em músculos que aparentemente não foram afetados pelo episódio de poliomielite. Cãibras musculares e fasciculações podem acompanhar a nova fraqueza.

Inclusões

Síndrome mielítica pós pólio

Exclusões de níveis acimaOcultar todos

Doenças endócrinas, nutricionais ou metabólicas(05)

Algumas afecções originadas no período perinatal(19)

Lesões, envenenamentos ou algumas outras consequências de causas externas(22)

Complicações da gravidez, do parto e do puerpério(18)

Todos Termos de ÍndiceOcultar todos

Atrofia muscular progressiva pós pólio

Síndrome pós pólio

PPMA - (atrofia muscular progressiva pós pólio)

Síndrome mielítica pós pólio

Termos Correspondentes

Os critérios diagnósticos para atrofia muscular progressiva pós-pólio (PPMA) são: uma história confiável de poliomielite com recuperação parcial da função, um período mínimo de estabilização de 10 anos e o desenvolvimento subsequente de fraqueza muscular progressiva. Sintomas de fraqueza, atrofia e fadiga de músculos previamente afetados podem ser observados. Esses sintomas também podem ser notados em músculos que aparentemente não foram afetados pelo episódio de poliomielite. Cãibras musculares e fasciculações podem acompanhar a nova fraqueza.

Categorias relacionadas no capítulo de condições maternas

Doenças do sistema nervoso complicando a gravidez, o parto ou o puerpério / Atrofia muscular progressiva pós pólio(JB64.3/8B62)

 

 

Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10).

 

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), está em sua 10ª edição e caracteriza-se como um sistema de classificação mundialmente utilizado que fornece códigos relativos à classificação de doenças e de uma grande variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças. É o sistema de codificação utilizado oficialmente em nosso país, tendo seu uso aplicado à clínica, às pesquisas e relacionado ao processo de planejamento, monitoramento e avaliação em saúde (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2007).

A Síndrome Pós-Poliomielite está classificada no Capítulo VI - Doenças do Sistema Nervoso Central – Atrofias sistêmicas que afetam primariamente o sistema nervoso central.

CID – G14 – Síndrome Pós-Poliomielite (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2010).