15 janeiro 2026

Poliomielite e o nascimento da reabilitação moderna: uma narrativa histórica.

Durante grande parte do século XX, a poliomielite foi uma das doenças mais temidas no mundo. Causada por um vírus altamente contagioso, a pólio atingia principalmente crianças, provocando paralisias súbitas, permanentes e, em muitos casos, fatais. Mais do que uma crise sanitária, a poliomielite se tornou um marco histórico que redefiniu a forma como a sociedade passou a compreender a deficiência, a recuperação funcional e o próprio conceito de reabilitação.

Um vírus invisível mudou o destino de milhões de corpos. Ele não escolhia classe social, país ou idade. Entrava em lares, escolas, praças… e deixava marcas para toda a vida. Seu nome: poliomielite.

Antes das grandes epidemias de pólio, a medicina tinha uma visão limitada sobre a recuperação de pessoas com sequelas motoras. A maioria dos pacientes com paralisias era considerada “irrecuperável”, destinada à imobilidade e à exclusão social. A pólio rompeu esse paradigma ao atingir milhares de crianças e jovens saudáveis, obrigando a ciência e os sistemas de saúde a buscar soluções para devolver autonomia, mobilidade e dignidade a essas pessoas.

A poliomielite era mais do que uma doença. Era um medo coletivo. Pais observavam filhos saudáveis acordarem paralisados. Crianças perdiam a capacidade de andar, respirar, sustentar o próprio corpo. O futuro, de repente, se tornava incerto.

As epidemias se intensificaram nas décadas de 1930, 1940 e 1950, especialmente na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Hospitais passaram a ser ocupados por fileiras de crianças em pulmões de aço, aparelhos criados para manter a respiração de pacientes com paralisia dos músculos respiratórios. Esses ambientes hospitalares foram os embriões das futuras Unidades de Terapia Intensiva, consolidando a ideia de cuidado contínuo, monitoramento e suporte vital especializado.

Quando a pólio atingia os músculos respiratórios, o corpo precisava de uma máquina para sobreviver. Assim nasceram os pulmões de aço. Fileiras de pessoas respirando por aparelhos. Era o início do cuidado intensivo. Sem saber, a humanidade criava as primeiras UTIs.

Paralelamente, surgia um novo campo do conhecimento: a reabilitação. Médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e engenheiros passaram a atuar de forma integrada. A fisioterapia moderna ganhou força com métodos de fortalecimento muscular, alongamento, reeducação motora e treino funcional. A terapia ocupacional passou a trabalhar a independência nas atividades da vida diária. A ortopedia desenvolveu órteses, próteses e adaptações para permitir a locomoção e a postura.

A medicina percebeu que sobreviver não era suficiente. Era preciso viver. Foi nesse momento que a reabilitação deixou de ser improviso e se tornou ciência. A fisioterapia moderna nasceu nos corpos marcados pela pólio. A terapia ocupacional nasceu do desejo de devolver autonomia. A ortopedia nasceu da necessidade de sustentar corpos que insistiam em caminhar.

A pólio também impulsionou a criação de centros especializados de reabilitação, escolas adaptadas, oficinas ortopédicas e programas de inclusão social. Pela primeira vez, a deficiência deixou de ser vista apenas como uma condição clínica e passou a ser compreendida como uma questão social, educacional e de direitos humanos.

A poliomielite não criou apenas técnicas médicas. Criou consciência social. Criou a noção de que deficiência não é sinônimo de incapacidade. Criou o debate sobre acessibilidade, educação inclusiva e direitos humanos.

Com a introdução das vacinas de Salk (1955) e Sabin (1961), a incidência da poliomielite caiu drasticamente em todo o mundo. No entanto, as sequelas permaneceram em milhões de sobreviventes, que continuaram a demandar acompanhamento, adaptação e políticas públicas. Décadas depois, surgiu o reconhecimento da Síndrome Pós poliomielite, reafirmando que a pólio não terminava com a infância, mas acompanhava a pessoa ao longo da vida.

Quando as vacinas chegaram, o mundo respirou aliviado. A pólio começou a desaparecer. Mas os corpos que ela tocou continuaram presentes. A história não terminou. Apenas mudou de capítulo.

Assim, a história da poliomielite é também a história da reabilitação. Foi a partir da dor coletiva provocada pela pólio que se consolidaram conceitos fundamentais como funcionalidade, autonomia, inclusão, acessibilidade e cuidado multiprofissional. A reabilitação deixou de ser um complemento e passou a ser um direito.

A poliomielite ensinou ao mundo que a fragilidade também constrói. Que da dor nasce ciência. Que da perda nasce direito. Que da limitação nasce humanidade.

 

Hoje, quando a pólio está próxima da erradicação global, sua memória permanece viva nos corpos, nas histórias e nas conquistas sociais das pessoas com deficiência. A poliomielite não apenas marcou gerações — ela construiu os alicerces da reabilitação moderna e transformou definitivamente a relação entre medicina, sociedade e dignidade humana.

Décadas depois, muitos sobreviventes enfrentariam a Síndrome Pós poliomielite ou Atrofia Muscular Progressiva Pós Poliomielite. A pólio, que parecia passado, voltava a lembrar que ela nunca foi apenas uma doença infantil. Ela era uma marca para toda a vida.

A pólio quase desapareceu.

Mas a reabilitação que ela criou permanece.

Em cada rampa, em cada prótese, em cada fisioterapia, em cada direito conquistado…

existe a memória silenciosa de um vírus que transformou o mundo.

Erradicar a poliomielite é proteger o futuro.

Lembrar da poliomielite é honrar a história.

08 janeiro 2026

A Poliomielite como Marco Fundador das Unidades de Terapia Intensiva: Uma Análise Histórico-Científica


Resumo


A poliomielite foi uma das principais responsáveis por epidemias de grande impacto social e sanitário no século XX. Além das sequelas neuromotoras amplamente conhecidas, a doença provocou elevado número de casos de insuficiência respiratória aguda, o que exigiu respostas médicas inovadoras. Este estudo analisa, sob perspectiva histórico-científica, a relação entre as epidemias de poliomielite e o surgimento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), destacando o papel da epidemia de Copenhague em 1952 como evento fundador da medicina intensiva moderna. Conclui-se que a poliomielite não apenas impulsionou avanços tecnológicos, mas também redefiniu a organização hospitalar e a prática clínica do cuidado ao paciente crítico.


Descritores: Poliomielite; Terapia Intensiva; História da Medicina; Ventilação Mecânica; Cuidados Críticos.


Abstract


Poliomyelitis was responsible for major epidemics with significant social and health impacts throughout the twentieth century. Beyond its well-known neuromotor sequelae, the disease caused a high incidence of acute respiratory failure, demanding innovative medical responses. This study analyzes, from a historical-scientific perspective, the relationship between poliomyelitis epidemics and the emergence of Intensive Care Units (ICUs), highlighting the Copenhagen epidemic of 1952 as a foundational event in modern critical care medicine. It is concluded that poliomyelitis not only stimulated technological advances but also redefined hospital organization and clinical practice in critical care.


Keywords: Poliomyelitis; Intensive Care Units; History of Medicine; Mechanical Ventilation; Critical Care.


1. Introdução

A poliomielite representou uma das mais relevantes emergências sanitárias do século XX, sendo responsável por elevadas taxas de morbimortalidade em diversos países. Antes da introdução da vacinação em larga escala, a doença acometia principalmente crianças, deixando um grande contingente de sobreviventes com sequelas motoras permanentes.

Entretanto, o impacto da poliomielite ultrapassou o campo da neurologia e da reabilitação. A forma respiratória da doença expôs as limitações da assistência hospitalar da época e impulsionou transformações estruturais que culminaram na criação das Unidades de Terapia Intensiva.

2. Metodologia

Trata-se de um estudo de natureza histórico-descritiva, baseado em revisão narrativa da literatura científica, livros de história da medicina e documentos institucionais. Foram analisadas publicações nacionais e internacionais que abordam a evolução da terapia intensiva, a história da poliomielite e o desenvolvimento da ventilação mecânica.


3. A Poliomielite e o Comprometimento Respiratório

A poliomielite, causada por um enterovírus, apresenta manifestações clínicas variáveis. Nas formas bulbar e bulboespinhal, ocorre comprometimento dos centros respiratórios e dos músculos responsáveis pela ventilação, resultando em insuficiência respiratória aguda potencialmente fatal.


Até meados do século XX, o principal recurso disponível era o pulmão de aço, equipamento de ventilação por pressão negativa. Apesar de sua relevância histórica, esse dispositivo apresentava importantes limitações técnicas e operacionais, especialmente durante surtos epidêmicos.

4. A Epidemia de 1952 em Copenhague

Em 1952, a cidade de Copenhague enfrentou uma das mais severas epidemias de poliomielite já registradas. A mortalidade entre pacientes com insuficiência respiratória ultrapassava 80%.


O anestesiologista Björn Ibsen introduziu uma abordagem inovadora: ventilação com pressão positiva por meio de traqueostomia e ventilação manual contínua. Essa estratégia reduziu drasticamente a mortalidade para aproximadamente 25%, demonstrando a eficácia do suporte ventilatória intensivo aliado à vigilância contínua.


5. Consolidação do Conceito de Terapia Intensiva

O sucesso da experiência dinamarquesa evidenciou a necessidade de reorganização dos serviços hospitalares. A partir desse contexto, foram estabelecidos os princípios fundamentais das UTIs:

  • Centralização de pacientes críticos;
  • Monitorização contínua;
  • Atuação multiprofissional;
  • Protocolização dos cuidados.

Em 1953, foi criada a primeira unidade estruturada segundo esses princípios, considerada a precursora das UTIs modernas.



6. Impacto na Prática Médica Contemporânea

A poliomielite foi determinante para o desenvolvimento de áreas fundamentais da medicina, como:

  • Ventilação mecânica invasiva e não invasiva;
  • Monitorização hemodinâmica;
  • Anestesiologia moderna;
  • Medicina intensiva como especialidade;
  • Organização hospitalar em níveis de complexidade.

Esses avanços permanecem como pilares do cuidado ao paciente crítico até os dias atuais.


7. Discussão

Embora atualmente a poliomielite esteja praticamente erradicada em grande parte do mundo, seu legado histórico permanece vivo nas UTIs. A doença revelou a fragilidade dos sistemas de saúde frente a crises respiratórias em massa, antecipando desafios que voltariam a ocorrer em pandemias posteriores, como a COVID-19.

Assim, a história da terapia intensiva não pode ser compreendida sem o reconhecimento do papel central desempenhado pela poliomielite.


8. Conclusão

A poliomielite foi mais do que uma enfermidade devastadora: foi o catalisador de uma das maiores transformações da medicina hospitalar. A criação das Unidades de Terapia Intensiva representa um dos seus mais importantes legados históricos.

Reconhecer essa origem não apenas preserva a memória científica, mas também reforça a importância da vigilância epidemiológica, da inovação médica e da organização dos sistemas de saúde frente às crises sanitárias.

Referências (modelo Vancouver)



  1. Ibsen B. The anesthetist’s viewpoint on the treatment of respiratory complications in poliomyelitis. Proc R Soc Med. 1954.
  2. Safar P. History of critical care medicine. Crit Care Med. 1981.
  3. Vincent JL. Critical care: origins and evolution. Crit Care. 2013.
  4. World Health Organization. Poliomyelitis: historical overview.
  5. Reis J, et al. História da terapia intensiva. Rev Bras Ter 


06 janeiro 2026

11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11)

 

8B62 - Atrofia muscular progressiva pós pólio

URI no Fundamento: http://id.who.int/icd/entity/2018885243

Código: 8B62

Descrição

Os critérios diagnósticos para atrofia muscular progressiva pós-pólio (PPMA) são: uma história confiável de poliomielite com recuperação parcial da função, um período mínimo de estabilização de 10 anos e o desenvolvimento subsequente de fraqueza muscular progressiva. Sintomas de fraqueza, atrofia e fadiga de músculos previamente afetados podem ser observados. Esses sintomas também podem ser notados em músculos que aparentemente não foram afetados pelo episódio de poliomielite. Cãibras musculares e fasciculações podem acompanhar a nova fraqueza.

Inclusões

Síndrome mielítica pós pólio

Exclusões de níveis acimaOcultar todos

Doenças endócrinas, nutricionais ou metabólicas(05)

Algumas afecções originadas no período perinatal(19)

Lesões, envenenamentos ou algumas outras consequências de causas externas(22)

Complicações da gravidez, do parto e do puerpério(18)

Todos Termos de ÍndiceOcultar todos

Atrofia muscular progressiva pós pólio

Síndrome pós pólio

PPMA - (atrofia muscular progressiva pós pólio)

Síndrome mielítica pós pólio

Termos Correspondentes

Os critérios diagnósticos para atrofia muscular progressiva pós-pólio (PPMA) são: uma história confiável de poliomielite com recuperação parcial da função, um período mínimo de estabilização de 10 anos e o desenvolvimento subsequente de fraqueza muscular progressiva. Sintomas de fraqueza, atrofia e fadiga de músculos previamente afetados podem ser observados. Esses sintomas também podem ser notados em músculos que aparentemente não foram afetados pelo episódio de poliomielite. Cãibras musculares e fasciculações podem acompanhar a nova fraqueza.

Categorias relacionadas no capítulo de condições maternas

Doenças do sistema nervoso complicando a gravidez, o parto ou o puerpério / Atrofia muscular progressiva pós pólio(JB64.3/8B62)

 

 

Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10).

 

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), está em sua 10ª edição e caracteriza-se como um sistema de classificação mundialmente utilizado que fornece códigos relativos à classificação de doenças e de uma grande variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças. É o sistema de codificação utilizado oficialmente em nosso país, tendo seu uso aplicado à clínica, às pesquisas e relacionado ao processo de planejamento, monitoramento e avaliação em saúde (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2007).

A Síndrome Pós-Poliomielite está classificada no Capítulo VI - Doenças do Sistema Nervoso Central – Atrofias sistêmicas que afetam primariamente o sistema nervoso central.

CID – G14 – Síndrome Pós-Poliomielite (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2010).